Segundo o Wall Street Journal, a Netflix discute adicionar canais always-on que transmitiriam séries e filmes específicos de forma contínua, num formato parecido com o da Pluto TV e da Tubi. A ideia surgiria num momento em que a empresa detecta sinais de queda no engajamento dos assinantes e busca novas alavancas para manter o público conectado à plataforma.
Segundo o relato publicado nesta quinta-feira, 9 de julho de 2026, executivos do serviço teriam abordado essas possibilidades durante a revisão anual de negócios realizada na primavera. O plano ainda está em fase de conversa interna, sem anúncio formal de produto, mas já indica uma mudança de rumo para uma gigante que construiu sua marca no modelo sob demanda e no binge watching.
Em resumo
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Canais always-on — a plataforma estuda transmissões lineares contínuas de programas específicos, inspiradas em Pluto TV e Tubi.
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Pacotes com rivais — a empresa também avalia bundles que incluiriam outros serviços de streaming, como Apple TV e Prime Video já oferecem.
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Engajamento em queda — cancelamentos seguem entre os mais baixos do setor, mas o tempo de tela por assinante vem caindo, segundo o WSJ.
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Plano com anúncios — o tier ad-supported cresce após reajuste para US$ 8,99/mês, mas não basta para reverter a tendência sozinho.
Canais always-on e o retorno da TV linear
Em vez de o usuário escolher o que assistir a cada sessão, a plataforma programaria fluxos contínuos de conteúdo, aproximando a experiência da televisão tradicional e dos serviços gratuitos com publicidade.
A diferença estratégica é relevante. Pluto TV e Tubi monetizam principalmente anúncios e não cobram assinatura. O streamer já tem um plano com comerciais, que segundo o WSJ ganhou tração depois do reajuste para US$ 8,99 por mês, mas ainda precisa equilibrar receita recorrente com tempo de tela. Canais sempre ligados poderiam aumentar o hábito de deixar o app aberto em segundo plano, comportamento que a empresa já tenta estimular com formatos mais leves.
Nos últimos meses, a plataforma ampliou o catálogo com podcasts em vídeo e conteúdos de marcas digitais como BuzzFeed e Condé Nast, materiais curtos e fáceis de consumir sem a atenção total exigida por uma série premium. Os canais always-on encaixariam nessa mesma aposta, reduzir o atrito entre abrir o aplicativo e começar a assistir algo imediatamente.
Pacotes e a lógica dos bundles no streaming
Além dos canais contínuos, o serviço também estuda vender pacotes que incluam outros serviços de streaming. O modelo não é novidade no setor. Apple TV e Prime Video já exploram combinações que ampliam o valor percebido da assinatura e dificultam a troca de plataforma.
Para a empresa, um bundle representaria mudança cultural. A gigante passou anos posicionando-se como destino único do entretenimento em casa. Agrupar rivais no mesmo pacote sugere reconhecimento de que o público já divide tempo e dinheiro entre vários apps, e que reter o cliente pode exigir facilitar esse ecossistema em vez de combatê-lo.
A tabela abaixo resume como as principais plataformas se posicionam frente às estratégias que o streamer agora considera.
| Plataforma | Canais always-on | Bundles com outros streamings | Plano com anúncios |
|---|---|---|---|
| Netflix | Em estudo, segundo o WSJ | Em estudo, segundo o WSJ | Sim, US$ 8,99/mês após reajuste |
| Pluto TV / Tubi | Sim, modelo central | Não | Gratuito com anúncios |
| Apple TV | Parcial, com canais ao vivo | Sim | Disponível em mercados selecionados |
| Prime Video | Canais e eventos ao vivo | Sim, via pacotes Amazon | Opção com anúncios em alguns planos |
Nenhuma dessas alternativas, isoladamente, resolve o desafio de engajamento. Mas juntas sinalizam que o streaming maduro está migrando de catálogo infinito para experiências mais passivas e integradas, onde a plataforma decide parte da programação e compartilha o ecossistema com concorrentes.
Por que o engajamento preocupa agora
A reportagem do WSJ chega quando a conversa interna na empresa já inclui formatos que antes pareciam distantes do binge watching. O cenário ganha peso com a cobertura recente da Bloomberg sobre quedas expressivas de audiência na segunda temporada de diversas séries originais do catálogo. Desfechos fortes na estreia não garantem mais a mesma retenção quando a história continua, o que pressiona o modelo de investimento em produções caras e multi temporadas.
Para uma empresa que monetiza tempo de tela, assinatura e publicidade, menos engajamento significa menos dados de consumo, menor eficiência do inventário de anúncios e maior risco de erosão do valor da marca. Os canais always-on e os bundles aparecem, nesse contexto, como tentativas de recriar hábito diário sem abandonar de imediato a base de assinantes premium.
Se as ideias avançarem, o perfil de uso do serviço pode ficar mais parecido com o de uma TV ligada o dia inteiro. O usuário abriria um canal temático, deixaria rolar episódios de uma franquia específica ou filmes de um gênero, e consumiria sem a curadoria ativa que definiu a experiência original do app.
Bundles, por outro lado, poderiam simplificar a conta mensal para famílias que já pagam vários streamings separadamente, como Disney+, Max e outros serviços. Ainda não há detalhes sobre preço, parceiros ou mercados, mas a direção aponta para uma plataforma menos isolada e mais adaptada à fragmentação do streaming.
Nada disso substitui a aposta principal em séries originais e filmes de alto orçamento. Porém, soma-se a um portfólio mais heterogêneo, no qual conteúdo curto de publishers, podcasts em vídeo e possíveis canais lineares convivem com os grandes lançamentos que ainda movem a conversa cultural.
Contexto de mercado
O setor de streaming entrou em uma fase em que crescer assinatura deixou de ser o único jogo. Com mercados saturados e preços subindo, as plataformas disputam minutos de atenção dentro da mesma casa. A gigante, que reporta lucros em alta e baixa rotatividade de clientes, enfrenta agora um problema mais sutil, manter o espectador presente depois da novela da estreia.
A aposta em canais always-on e bundles reflete essa transição. Rivais gratuitos já capturam audiência com programação contínua e anúncios. Concorrentes premium já vendem pacotes. O líder do binge watching, que cobra US$ 8,99 no plano com anúncios após reajuste recente, parece disposto a testar ferramentas que antes pareciam alheias à sua identidade. Se o engajamento continuar caindo, a pergunta deixa de ser se o formato mudará e passa a ser quão rápido essa mudança chegará à tela do assinante.