Segundo a Gizmodo, um pedido via Freedom of Information Act (FOIA) à Federal Trade Commission (FTC) dos Estados Unidos entregou 153 reclamações de consumidores que citam o Grok, chatbot da xAI de Elon Musk. A agência informou que mantém 873 registros no total que mencionam o serviço, mas liberou apenas uma fração para leitura, com dados pessoais redigidos.

O material publicado nesta sexta-feira, 11 de julho de 2026, expõe um retrato contraditório do produto, parte dos usuários acusa o Grok de censura excessiva em texto e vídeo, enquanto outra parte relata gerações perturbadoras, viés racial e práticas comerciais que consideram enganosas. A xAI não respondeu às perguntas da Gizmodo na quinta-feira anterior à publicação.

Em resumo

  • Volume na FTC — a agência contabiliza 873 queixas que mencionam Grok; a Gizmodo analisou 153 obtidas por FOIA.

  • Dois polos — registros pedem conteúdo adulto sem filtros e também denunciam moderação agressiva em ficção criativa.

  • Risco de imagem — há relatos de deepfakes explícitos não solicitados e cenas perturbadoras geradas sem prompt do usuário.

  • Assinatura — cancelamentos travados, cobranças após cancelamento e queda abrupta de limites de geração aparecem com frequência.

A FTC concentra centenas de registros sobre o chatbot da xAI

As queixas analisadas pela Gizmodo integram o Consumer Sentinel, banco usado pela FTC para orientar investigações e mapear tendências de fraude no mercado. A publicação ressalta que não foi possível verificar independentemente cada relato individual, porque os documentos chegaram anonimizados, mas padrões se repetem com clareza.

Entre os casos citados no artigo, um usuário do Texas, em abril de 2026, pediu explicitamente a possibilidade de produzir deepfakes avançados totalmente explícitos e sem censura, com conteúdo adulto classificado como mature. Outro registro, de Minnesota em maio de 2026, descreveu moderação quase total em prompts de vídeo que funcionavam nas semanas anteriores, após assinar o plano SuperGrok por US$ 30 mensais com promoção de três meses por US$ 30.

A Gizmodo contextualiza o pedido FOIA como parte de uma linha editorial recorrente, a redação já obteve queixas semelhantes sobre marcas como Canon, ChatGPT e Ashley Madison ao longo da última década, usando o mesmo mecanismo legal para iluminar problemas recorrentes reportados diretamente ao regulador.

Usuários pedem menos filtros enquanto outros denunciam conteúdo nocivo

O arquivo mostra que a moderação do Grok é percebida de formas opostas. Um relato de Nova Jersey, de maio de 2026, acusa o chatbot de bloquear cenas fictícias com sequestro ou desvio de fundos universitários, enquanto tolera vandalismo ou personagens menores fumando, o que o autor classifica como censura seletiva em projetos de escrita criativa.

Na outra ponta, um consumidor do Colorado relatou gerações repetidas de imagens e vídeos perturbadores sem solicitação, incluindo cena de criança em situação de dano e representações íntimas não consentidas envolvendo o próprio usuário. Outra queixa, da Carolina do Sul, acusa o serviço de promover material enviesado sobre diferenças de QI entre grupos raciais, apresentando estudos inconclusos como fatos consolidados.

Esse contraste reforça a dificuldade regulatória, a mesma camada de segurança que impede certos conteúdos para uns é vista como barreira arbitrária por outros, enquanto falhas apontadas por terceiros levantam alertas sobre dano psicológico, discriminação e possível uso indevido de dados privados.

Tipos de reclamação mais recorrentes nos documentos liberados

Tema principalO que os usuários relatamExemplo citado pela Gizmodo
Moderação e censuraBloqueio de prompts antes aceitos; pedidos de conteúdo adulto sem filtrosUsuário de Minnesota vê 100% das tentativas de vídeo moderadas após semanas de uso normal
Assinatura e limitesRedução abrupta de gerações diárias após pagamento anual ou mensalAssinante da Geórgia relata queda de cerca de 100 imagens por dia para 20-25
CancelamentoFluxos que não concluem, cobrança após cancelamento aparenteConsumidor de Wyoming cobrado US$ 30 em junho após licença marcada como cancelada
PrivacidadeRespostas contraditórias sobre retenção e treinamento com dados de convidadoUsuário de Connecticut aponta ausência quase total de proteções
Verificação de golpesGrok validou perfis que depois se revelaram fraudulentosVítima de Washington perdeu cerca de US$ 18.938,90 após consulta inicial ao chatbot

Cancelamentos difíceis e personalização quebrada alimentam desconfiança

Além das disputas sobre conteúdo, vários registros tratam o Grok como produto comercial instável. Reclamações de Maryland e Nova York descrevem caminhos de cancelamento que não funcionam, portais Stripe com erro e ausência de telefone de suporte, em possível conflito com a regra Click-to-Cancel da FTC, que exige que encerrar a assinatura seja tão simples quanto contratá-la.

Outro caso, da Carolina do Sul, afirma que a função Customize Grok, apresentada como forma de ajustar tom e comportamento do modelo, não opera, o próprio chatbot teria admitido ignorar instruções salvas nas configurações, o que o autor enquadra como prática enganosa sob a Seção 5 da FTC Act, com menção à multa civil máxima de US$ 53.088 por violação.

Há ainda relatos de planos Grok Heavy a US$ 300 mensais com queda de uso estimada em 85% a 90% sem aviso prévio, além de consumidores que recorreram ao banco para estorno após desistir do serviço. A Gizmodo observa que dificuldade para cancelar não é exclusiva do Grok, mas a combinação com limites reduzidos e termos como bait and switch aparece de forma recorrente no lote analisado.

Contexto de mercado

O vazamento por FOIA chega em um momento de escrutínio mais amplo sobre chatbots integrados a redes sociais. Grupos de defesa do consumidor já pressionaram investigações sobre modos sensuais e ferramentas de imagem do Grok, citando risco de deepfakes não consentidos e exposição de menores a conteúdo adulto embutido em formatos de entretenimento.

Para a xAI, o arquivo da FTC funciona como termômetro público de duas frentes simultâneas, expectativa de liberdade quase total prometida em parte da base de usuários e exigência de salvaguardas que outros consumidores consideram ausentes ou inconsistentes. Enquanto a empresa permanece em silêncio perante a Gizmodo, os 873 registros totais sinalizam que reguladores americanos dispõem de um volume substancial de material para orientar futuras ações, mesmo sem resposta individual a cada denúncia.